Sendai
gosto de caminhar pelo meu bairro
ao final da tarde
sempre encontro o velho Mishima
com seu mesmo boné
e sua lâmina de samurai cravada no ventre
ele permanece vivo
permanecerá vivo eternamente
cutucando a terra do jardim
é sempre desse jeito
uma tarde depois da outra
elas não falham
assim como não falha o demorado banho
da garota Mitsue
acredito que ela tire a roupa
diariamente às 18 e 32
no exato momento em que o sol nascente
se descompõe
ela está lá
nua
sonhando sob o jorro transparente
ontem me deparei com Kawabata
dissertando longamente sobre a sagacidade humana
ou seria sobre o desejo humano?
já não lembro mais
ando lentamente pelas ruelas do bairro
meus pés cansam
meus pés estão cansados agora
sento no mesmo banco sob a cerejeira todas as tardes
enquanto o sol nascente se descompõe
lerdo mas inteiro
o sol
como se fosse um haiku escrito em vermelho
vermelho de dar medo
já não tenho mais medo
o amigo Akira me ensinou a sentar aqui
sem sentir medo
aspirando o vapor da cerejeira
e a olhar esse mesmo Pacífico
que amanhã
ou depois
me abraçará