divagações à beira do leito de minha mãe
mais de uma vez
estive
à sua sombra
mas eu era como o ser primordial
que voltava para a caverna
ao final do dia
trazendo um alimento
sem nome
um animal uma caça um troféu
sem nome
e inventava a fogueira
e minha sombra
multiplicada
era minha tribo
inscrita
nas paredes
sei dizer
que mais de uma vez
estive à sua sombra
amparado
mesmo quando
nada mais surtia efeito
e seu soluço
quase silencioso
brotava
e desaparecia
brotava
e desaparecia
e foram infinitos os dias
desde lá
de dentro
até aqui
e imagino
o que houve
desde aquele universo
tão
pequeno
até este momento
que de tão suave
dolorido
e completo
se esvazia e se preenche
mas ainda consigo me levar
até o fundo
da casa
é lá que me sento
e fumo meu cigarro
e olho para cima
a noite quase completa seu arco
viver é um pecado
estar vivo
é um pecado
por demais
doloroso
agora ensaio voltar para dentro
atravessando corredores imensos:
eis o infinito
eis ali a dolorida dobra do infinito
atravessando corredores imensos
e recolho a roupa
suja
de todos os cômodos
e preparo a comida
e volto pra sala
e escolho a música
e desisto
da música
e volto pra cozinha
fiz
mais uma vez
um excelente molho
e olho pela janela
imóvel
ali está ele
o infinito doloroso