o infinito

os assassinatos
um após o outro
começaram numa madrugada de janeiro
eles me alcançaram definitivamente
ontem à tarde
durante uma leitura
estava tão concentrado
as janelas fechadas
o ar pesado feito guilhotina
e uma premonição
golpeando
é sempre bom repetir
que as janelas fechadas
tinham feições de fantasmas
os velhos fantasmas de sempre
os juízes
os velhos juízes de sempre
vociferando na tribuna
um deles disfarçado de mulher
mas seu timbre desmentia a própria condição
de mulher
ouço vozes
como já disse outras vezes
pouco distintas
é verdade
se bem que não alcanço a verdade
desde aquela madrugada de janeiro
foi quando os assassinatos
começaram
um após o outro
viajaram muito
os crimes as vítimas os criminosos
e as palavras
os juízes os fantasmas
e as sentenças
viajaram muito
até que me alcançaram
aqui